O adoecimento mental vinculado ao trabalho parou de ser um fenômeno quieto e solitário para se tornar um indicador coletivo de preocupação social. A partir das recentes atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), empresas com altos índices de afastamentos por motivos de saúde, especialmente por transtornos mentais e emocionais, passarão a ser alvo prioritário das atuações de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, segundo o periódico Valor Econômico.
Mais do que uma medida punitiva, a iniciativa sinaliza uma modificação de paradigma: o reconhecimento de que a dor psíquico não nasce apenas do indivíduo, mas também da forma como o trabalho é organizado, exigido e vivido. Estresse crônico, ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outros transtornos psicossociais passam a ser compreendidos como riscos ocupacionais, exigindo identificação, prevenção e intervenção por parte das organizações.
Nesse sentido, o pensamento do psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours permanece atual. Em A Banalização da Injustiça Social, o autor aponta que o sofrimento no trabalho tende a ser naturalizado quando as organizações passam a tratar a dor psíquica como fraqueza individual, silenciando as causas estruturais que a produzem. Quando isso ocorre, a injustiça deixa de chocar e passa a ser administrada como parte “normal” do cotidiano produtivo.
Os números do INSS mostram um crescimento assombroso dos afastamentos por transtornos mentais nos últimos anos. Esses dados não surgem do acaso. Eles refletem serviços marcados por metas inalcançáveis, jornadas extenuantes, precariedade profissional, assédio moral oculto ou explícito e carência de espaços de escuta e cuidado. Quando o corpo e a mente adoecem em massa, é o próprio padrão de gestão que carece ser discutido.
A nova diretriz da NR-1 exige que as empresas implementem programas efetivos de gestão de riscos psicossociais, indo além de documentos formais. Não basta cumprir a norma no papel. Será observado se há ações concretas, acompanhamento contínuo, registro de adoecimentos, intervenções preventivas e mudanças reais na organização do trabalho. Empresas que negligenciarem esses aspectos poderão sofrer sanções administrativas e multas.
Do ponto de vista psicológico, o trabalho deveria ser um espaço de construção de identidade, pertencimento e sentido. Dejours lembra que quando o trabalhador não encontra reconhecimento, cooperação e justiça simbólica, o sofrimento deixa de ser transformador e passa a ser patogênico. Ou seja, não é o esforço que adoece, mas a impossibilidade de dar sentido humano ao que se faz.
A fiscalização, nesse contexto, funciona como um espelho social: ela devolve às empresas a imagem dos efeitos de suas práticas sobre a saúde de quem sustenta a produção. O objetivo maior não é penalizar, mas promover uma cultura organizacional mais ética, humana e sustentável.
Investir em saúde mental não é custo; é prevenção, produtividade saudável e responsabilidade social. Empresas que cuidam de pessoas tendem a reduzir afastamentos, fortalecer vínculos e construir ambientes de trabalho mais justos.
O avanço da fiscalização representa, portanto, um passo significativo no enfrentamento da banalização do sofrimento no trabalho. A saúde mental do trabalhador é um direito, e o cuidado com ela é uma obrigação coletiva. Quando o adoecimento diminui, todos ganham: o trabalhador, a empresa e a sociedade.

O que os números revelam
Em 2024, o Brasil bateu recorde de afastamentos por saúde mental, com 472.328 licenças médicas concedidas, maior patamar desde 2014.
Esse volume representa um aumento de cerca de 68% em relação a 2023.
Esses números ajudam a compreender a dimensão da crise de saúde mental no mundo do trabalho brasileiro e contextualizam a medida anunciada pelo governo para fiscalizar empresas com altos índices de afastamento — reforçando a importância da prevenção, da organização do trabalho e do cuidado com os riscos psicossociais.
Por Aguinaldo Adelino Carvalho
Psicólogo CRP 06/142740

