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ARTIGO: O Homem pode chorar?

A saúde mental masculina tem se consolidado, nas últimas décadas, como um tema central e urgente no campo da saúde e das ciências humanas, em especial a Psicologia. Esse debate surge em um contexto histórico de intensas transformações sociais, nas quais os papéis tradicionalmente conferidos à masculinidade vêm sendo discutidos e ressignificados. Durante muito tempo, construiu-se socialmente a ideia de que o homem deveria ser forte, invulnerável e emocionalmente contido. Expressões como “menino não chora” atravessaram gerações, funcionando como dispositivos simbólicos de silenciamento do sofrimento psíquico masculino.

Esse modelo hegemônico de masculinidade impôs aos homens uma restrição significativa no acesso e na expressão de seus afetos, sentimentos e emoções. Demonstrar tristeza, medo, angústia ou fragilidade passou a ser compreendido como sinal de fraqueza, incompatível com o ideal masculino socialmente esperado, sempre forte e inabalável. Como consequência, muitos homens cresceram e se desenvolveram sem espaços legítimos para nomear e elaborar suas emoções, aprendendo, desde cedo, a reprimi-las. Esse processo de repressão emocional não elimina o sofrimento; ao contrário, contribui para seu acúmulo e intensificação. Levando a um dia o transbordar do copo.

A impossibilidade de expressar sentimentos de maneira saudável favorece a formação de um estado psíquico represado, no qual dores, frustrações, lutos e conflitos permanecem silenciados. Quando não há movimentos de elaboração e reparação psíquica, essa dor tende a se tornar crônica, silenciosa e, muitas vezes, invisível. O sofrimento se instala de forma discreta, quieta, até o momento em que encontra uma via de escape abrupta. Um rompante! Não raramente, essa explosão emocional ocorre de maneira intensa e desorganizada, podendo resultar em comportamentos autodestrutivos, abuso de substâncias, episódios de violência ou, em casos extremos, desfechos fatais.

Nesse sentido, torna-se fundamental desconstruir o mito de que o homem não sofre psiquicamente ou de que possui maior capacidade de suportar a dor emocional sem consequências. Homens sofrem, adoecem e necessitam de cuidado psicológico tanto quanto qualquer outro grupo. No entanto, barreiras culturais, sociais e simbólicas ainda dificultam o acesso masculino aos serviços de saúde mental, seja pelo medo do julgamento, pela vergonha de expor fragilidades ou pela crença de que buscar ajuda representa fracasso pessoal.

Promover a saúde mental masculina implica, portanto, criar e fortalecer espaços de escuta qualificada, acolhedora e livre de julgamentos. Ambientes terapêuticos e institucionais devem ser estruturados de modo a garantir que o homem se sinta respeitado, não desmerecido e legitimado em seu sofrimento. A ampliação da atenção em saúde mental passa pelo reconhecimento da singularidade das experiências masculinas e pela oferta de intervenções que considerem os impactos das construções sociais de gênero sobre o psiquismo.

Falar sobre saúde mental masculina é, acima de tudo, um ato de cuidado e prevenção. É possibilitar que emoções sejam expressas antes que se tornem insuportáveis, que o sofrimento seja elaborado antes de se transformar em tragédia e que os homens possam se reconhecer como sujeitos de direito ao cuidado, à escuta e à saúde integral. Desmistificar a masculinidade invulnerável é um passo essencial para a construção de uma sociedade mais saudável, empática e humanizada.

 

Aguinaldo Adelino Carvalho

Psicólogo CRP 06/142740

 

               

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