Há muitos anos uma mulher resolveu adotar um bezerrinho recém-nascido. Assim, todos os dias acariciava o bicho no colo, como uma criança. Com o passar do tempo, a mulher se habituou tanto a essa meiga tarefa que, mesmo depois de o bezerro ter se tornado um boi, continuou a carregá-lo sem ao menos perceber o enorme peso que levava nos braços.
A explicação dos pensadores para esse tipo de caso é a de que quando uma de nossas ações se automatiza, nossa consciência se retira dela. Quando aprendemos um exercício, por exemplo, começamos conscientes de cada movimento. Ele vem de nós, resulta de uma decisão e implica uma escolha. Depois, à medida que os movimentos se encadeiam e se determinam mecanicamente, nos dispensam de decidir e de escolher.
Podemos perceber que o costume, grande guia da vida, não pede reflexão; pelo contrário, enfraquece o senso crítico. Existe nisso certa vantagem, mas também alguns transtornos. Sem se dar conta, algumas pessoas carregam um boi no colo!…
Em tempos remotos, levadas pelas circunstâncias, as pessoas deram início a uma determinada atividade; a política. Ao longo dos anos, aprenderam algumas virtudes da atividade e muitos de seus vícios. Agora, fora dela já não conseguem se acertar, só veem graça na vida quando estão com os demais adeptos da mania e nos seus embates, falando de seus assuntos e combatendo desafetos internos.
Quantos erros foi preciso cometerem para sobreviver na atividade! Com o senso crítico adormecido pelo hábito, não perceberam a chegada do novo, suas raras virtudes esvaíram e, com o tempo, foram acumulando tanta culpa que hoje chegam a ser companhias insalubres dentro do pobre mundinho que tanto amam. Como tudo se deu aos poucos, não veem as coisas assim.
É por isso que outro caso bem antigo não deve ser esquecido. O sábio Bias quando enfrentava uma violenta tempestade em alto-mar na companhia de alguns sujeitos que clamavam pela ajuda divina, disse: ‘’Calem-se, para que Deus não perceba que vocês estão neste barco!’’.
A sina de pessoas viciadas em política não parece muito diferente dessa dos ‘’companheiros’’ do sábio grego. Algumas, por carregarem um boi de culpa, enfrentam disfarçado isolamento no meio político; outras, como ainda seguram um singelo bezerrinho, só enfrentarão o problema daqui a algum tempo.
Enfim, o bom senso recomenda palanques de concreto para alguns dos candidatos que disputarão as eleições do próximo ano. Não é tarefa fácil esconder um grande rebanho. Sobrarão bois em alguns palanques, e bezerros em outros. Detalhe: publiquei este texto pela primeira vez em em dezembro de 2007. Como é atemporal, pelo menos na Nova Alta Paulista, qualquer semelhança com o passado não é mera coincidência…